A ÓPERA, UMA MÚSICA DE TODOS
Primeira manifestação do gênero no mundo, Ópera na Tela tem a ambição de oferecer ao público brasileiro uma seleção das melhores adaptações de ópera para o cinema, assim como óperas filmados recentemente, nos grandes teatros e festivais europeus, permitindo descobrir ou reencontrar os cantores, orquestras e diretores mais destacados da atualidade lírica mundial.
Esta primeira edição, que ocorrerá no Rio de Janeiro, Manaus, Belém e São Paulo, foi inicialmente concebida como uma homenagem ao célebre produtor francês Daniel Toscan du Plantier, brilhante embaixador do cinema e da ópera, suas duas paixões, a quem devemos a maior parte das obras cinematográficas apresentadas nesta seleção (Don Giovanni, Carmen, Madame Butterly, Tosca, entre outras).
Em seguida, em parceria com o canal cultural franco-alemão Arte, nós montamos um suntuoso programa composto de captações audiovisuais de óperas e ballets recentes (Orfeu e Eurídice, A Valquíria, Macbeth, Didon e Aeneas, Stravinski,Peer Gynt etc.), assim como de documentários de divulgação da música clássica. Ao público será permitido assistir, com uma diferença de poucos dias, a abertura da temporada 2009-2010 da Ópera de Paris, com Mireille, uma obra rara de Charles Gounod, filmada no último dia 14 de setembro, na Ópera Garnier.
O festival tem como prioridade contribuir para a democratização da ópera, que se transformou, por equívoco, numa arte reservada à elite.
Deliberadamente acessível, Ópera na Tela oferece uma ocasião rara ao público jovem e popular de serem tocados pela sua magia. Lembremos que o gênero, na sua concepção inicial, dirigia-se a uma ampla audiência como espetáculo visual e lúdico. É com essa tradição popular que pretendemos reatar hoje.
É sob essa ótica que o festival propõe igualmente um projeto educativo de iniciação à ópera, ministrado com muito entusiasmo pelo maestro Ricardo Prado, cujo objetivo é sensibilizar o público jovem e apresentar algumas chaves indispensáveis à compreensão e à apreciação das obras apresentadas.
Mas, para tocar o público, é preciso antes de tudo emoção, frisson e lágrimas. E é neste momento que entra o papel fundamental das ferramentas audiovisuais, com a delicada função de reproduzir a emoção da ópera e de tornar virtual o espetáculo vivo, apoiando-se em tecnologias recentes, como a projeção de alta definição sobre tela gigante e o som digital.
E justamente porque o uso dessas tecnologias audiovisuais constitui um desafio incontornável à democratização da cultura no Brasil, que o festival organiza o seminário profissional “Filmar as Artes”. Este permitirá a abordagem das técnicas de captação e difusão de espetáculos, na presença dos maiores especialistas da Europa e do Brasil, em parceria com escolas de cinema, e com o canal Arte. Nosso desejo é que cooperações frutíferas nasçam desse encontro e que contribuía para o desenvolvimento de filmagens de óperas apresentados nos palcos brasileiros.
Gostaríamos de agradecer aqui a algumas pessoas que tiveram um papel decisivo à concretização desta primeira edição, sempre mais difícil: Marcelle Pithon, diretora do Centro Cultural dos Correios; Yann Lorvo, diretor geral da Aliança Francesa no Brasil; Alain Fohr, Presidente da comissão Franco-Alemão, Gabrielle Babin, diretora da unidade Espetáculos e Cultura do canal Arte; José Carlos Avellar, programador do Instituto Moreira Salles; Charles-Eric Poussin, diretor de marketing da Varilux e Sergio Casoy, um dos maiores especialistas em ópera do Brasil.
Graças a eles, o público brasileiro poderá provar a alquimia cara de Igor Stravinsky que afirmava: “não basta apenas ouvir a música, é preciso também enxergá-la”.
A todos, um bom festival com belas emoções líricas!
Christian e Emmanuelle Boudier
Diretores do festival
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HOMENAGEM A DANIEL TOSCAN DU PLANTIER

Esse primeiro Festival Ópera na Tela rende homenagem a Daniel Toscan
du Plantier, que foi o primeiro produtor a ousar unir o cinema e a ópera,
suas duas paixões, além de colocar os diretores mais talentosos
a serviço das maiores óperas.
Na Gaumont, de onde foi diretor geral durante muitos anos, ele conduziu uma
ambiciosa política de produção de filmes de autor com cineastas
como Bertrand Tavernier (Des enfants gâtés, 1977), Maurice Pialat
(Loulou, 1979), André Téchiné (Les Soeurs Brontë,
1979) e François Truffaut (O Último Metrô, 1980). O mesmo
aconteceu na Itália, onde produziu Federico Fellini (Cidade das mulheres,
1980) e Ettore Scola (O Terraço, 1979).
Apaixonado por ópera, em 1978 pede ao cineasta Joseph Losey que dirija
Don Giovanni, inventando assim um novo gênero: o filme-ópera. Essa
iniciativa marca o primeiro sucesso comercial de uma ópera filmada. Sobre
isso, ele declara: «acho que a música participa da imagem. Foi
a partir de Don Giovanni que descobri o que realmente queria fazer».
Ele repete a escolha com Carmen (1984), de Francesco Rosi e, em seguida, como
presidente da sociedade Errato, produz cineastas de alto nível e seus
filmes-óperas: La Bohème (Luigi Comencini, 1988), Boris Godounov
(Andrzej Zulawski,1989), Madame Butterfly (Frédéric Mitterrand,
1995), Tosca (Benoît Jacquot, 2000).
Daniel Toscan du Plantier acredita que «para fazer um bom filme a partir
de uma ópera é preciso fugir dos especialistas » e procurar
antes de mais nada grandes cineastas. Preocupado em aplicar a regra ensinada
pelo seu mestre espiritual Roberto Rossellini («no cinema, é preciso
esfriar as emoções »), ele chama Losey para Don Giovanni
por que acha interessante aplicar conceitos brechtinianos de distanciamento
para filmar o universo de Mozart. Da mesma forma, escolhe Benoit Jacquot por
que acredita que sua frieza seria perfeitamente conveniente em uma ópera
tão carregada de emoções como Tosca. A título de
anedota, conta que quando se aproximou para sondar Fellini, este teria respondido:
«o que eu faço, já são óperas».
A carreira de Daniel Toscan du Plantier ilustra melhor que qualquer outra a
importância do produtor no cinema, seu papel de iniciador e de construtor.
«O produtor é muitas vezes o pai do filme. Ele junta os elementos
e os torna possíveis. Ele não é o autor, não faz
o filme, mas para que o filme aconteça é preciso que esse enorme
investimento seja conduzido pela mão do começo ao fim».
E se esse embaixador do cinema, da ópera e da arte sob todas as suas
formas está na origem de obras fundamentais é sem dúvida
porque era também um grande apaixonado pela vida, como bem mostra essa
frase, sem revelar seu segredo: «o melhor, eu desejei, me apossei e vivi
com todo o meu coração. O pior, eu ignorei tanto quanto pude».